Semideuses da politica colocam democracia em risco.
- Walber Guimarães Junior
- 25 de mar.
- 4 min de leitura
Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e diretor da CIA FM.
O Brasil de Lula que substitui o Brasil de Bolsonaro, os EUA de Trump; a Argentina de Millei ou El Salvador de Bukele parecem apontar para uma reedição de velhos tempos da América Latina, onde ditadores ou caudilhos se sobrepunham aos partidos ou conceitos. A aproximação dos bastidores com a parte visível da política, consequência dos novos tempos de informações em tempo real e excesso de exposição pelo digital, exigem um redesenho das relações políticas.

Nas décadas anteriores, políticos eram trabalhados como personagens, a serem desenhados milimetricamente para atender aos anseios populares, algo muito mais fácil porque, basicamente, era possível “esconder” políticos do eleitor, bastando minimizar informações que não contribuíssem para o modelo projetado, algo impensável atualmente onde a intimidade das personalidades públicas é muito restrita.
Tudo parecia indicar que o formato ideal apontava para uma identificação da personalidade com a ideia, algo que aconteceu com a prioridade pelo social de Lula, que evoluiu até a alcunha de “pai dos pobres” ou a associação de Bolsonaro com a pauta conservadora, ambas com extremo êxito. Mas, se percebe uma alteração dos conceitos.
Como estrelas de Hollywood, cada detalhe dos políticos é , atualmente, explorado e desenhado com esmero pelas equipes de marketing, criando ídolos que substituem os líderes anteriores. A associação dos artistas da política com características que combinam com a leitura de seus nichos é projetada pelo marketing, se valendo de todo o aparato que as redes sociais disponibilizam. São tratados como macro influenciadores, segundo a mesma lógica de que precisam falar para suas bases, reforçando a imagem de representantes únicos e insubstituíveis no imaginário popular, de seus desejos fortes, embalados como salvadores da pátria e super-heróis escalados para proteger a nação do caos que representa qualquer outra possiblidade ideológica diferente.
Admitidas as devidas atualizações, a sequência é o roteiro goebeliano, repetindo a versão até a exaustão para um público louco para consumir cada vez mais leituras que combinem com suas crenças.
Acontece que a lição foi absorvida e praticada com êxito em inúmeros países, gerando semideuses da política, idolatrados por suas facções, como ídolos do time de futebol, com a paixão que se devotava aos ícones da música ou do cinema. Para seus públicos, é inconcebível criticar Millei, Trump, Lula ou Bolsonaro, não movidos pela força, como o medíocre Maduro da Venezuela, mas pela paixão que une eleitores e lideranças. E, todos sabem, a paixão cega ...
Essencialmente este é o nó a ser desatado. O jogo democrático pressupõe debate e convencimento no confronto entre ideologias diferentes que conjugadas com planos, apresentam formas diferentes de enfrentar o mesmo problema, cada uma delas associada a um personagem que assume o papel de representante ou porta-voz, sobre os quais o eleitor exerce o legítimo direito de escolher a melhor solução. Qual o problema? Acabou o espaço para o debate ou mesmo para a convergência, todos já tem o seu lado, sempre do bem e qualquer alternativa diferente tem o selo do inferno e seus representantes na Terra.
Alguma dúvida? Tente criticar Lula, Bolsonaro, Trump ou Millei para seus convertidos e se prepare para ser trucidado, transferido para a lista negra e execrado do rol de pessoas de bom senso porque só tem espaço para iguais, os iluminados que tendem salvar o universo das trevas eternas, sempre representadas pelo lado oposto.
Todo a cena política está moldada para abrigar o autoritarismo e o populismo, características que enquadram os listados e tantos outros candidatos a caudilhos, todos dispostos a exercer o poder por todo o tempo que conseguirem, sem preocupação com sucessão e focados em seus delírios personalistas. Pouco importa se a lei lhes obstrui o caminho ou se a idade lhes compromete a agilidade mental. Acreditam na missão quase divina, como faraós modernos, que se “sacrificam” para cuidar do povo e do país, evitando a derrocada, sempre representada por suas ausências.
Seguem investidos por suas missões, embalados por torcidas organizadas que xingam os adversários como as mães dos juízes no campo de futebol, convencidos que precisam entregar suas contribuições para salvar a pátria, conferindo um caráter messiânico às disputas eleitorais.
Difícil imaginar bom senso enquanto eleitores atuarem como hordas, sem espaço para o debate, para convergências ou mesmo para que a lucidez se imponha até como regra de civilidade.
Se Lula, Bolsonaro ou Millei já inspiram preocupações pela polarização odiosa, Trump, investido do poder da presidência americana, causa medo à Aldeia Global, por desconhecê-la e trabalhar apenas “ciscando” para dentro, focado apenas nas questões internas, sem visão macro ou, no mínimo, preterindo qualquer variável que não o incomode até a próxima eleição, obsessão comum a todos listados no texto e seus similares.
Sem dúvida, a democracia está em perigo, como já demonstraram Trump e Bolsonaro em ações incontestáveis de repúdio às urnas, aos quais se unem os demais pelo apego ao poder. Todos alinham lideranças desenhadas, combinadas com assinaturas fortes, populismo, estilo centralizador, sem herdeiros ou substitutos, e agarrados ao poder com todas as suas forças.
Por coincidência, nenhum deles tem apego à academia, universidades, livros ou pesquisa, mas uma rápida visita à biografia de Napoleão Bonaparte, alguém que realizou todos os sonhos de consumo desta turma, indo além de sua frase mais célebre “Na vitória, você merece Champanhe. Na derrota você precisa dele.”, se reportando a um momento mais lucido para vaticinou “Com o tempo, poder em excesso acaba por depravar o homem mais honesto.”
Não conseguimos conter personagem populistas ou autoritárias, mas se ouvíssemos Lord Acton, autor da famosa frase: "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, estaríamos focados em impedir reeleições como principal antídoto para o veneno que corrompe as veias abertas da politica moderna.
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