Rogéria em Tieta: Atual ou Ultrapassado?
- Leonna Moriale
- 27 de fev.
- 2 min de leitura
A participação de Rogéria na novela Tieta, exibida em 1989, é um marco na teledramaturgia brasileira. Em um período em que a discussão sobre identidade de gênero era incipiente, a presença de uma travesti no horário nobre da televisão representou um ato de coragem e transgressão. No entanto, ao revisitarmos a novela sob a ótica contemporânea, é impossível ignorar as contradições e os discursos problemáticos que permeiam a trama.

Na época, Tieta era considerada uma novela à frente do seu tempo, abordando temas como liberdade sexual, feminismo e a luta contra o conservadorismo. A personagem de Rogéria, no entanto, era relegada a um papel caricatural, reforçando estereótipos e alimentando o imaginário popular sobre travestis. A personagem era vista como exótica, engraçada e extravagante, mas raramente como um indivíduo complexo com suas próprias dores e alegrias.
Apesar das limitações, a presença de Rogéria em Tieta foi um passo importante para a visibilidade trans na mídia. A atriz, que já era uma figura conhecida no meio artístico, utilizou sua plataforma para dar voz às questões da comunidade trans, denunciando a discriminação e a violência que enfrentavam. Rogéria foi uma pioneira, abrindo caminho para que outras travestis e transexuais pudessem ocupar espaços na televisão e no cinema.
No entanto, é preciso reconhecer que o discurso de Rogéria, assim como o da novela, refletia as limitações da época. A atriz, por vezes, reproduzia estereótipos e discursos problemáticos sobre a identidade trans, como a ideia de que travestis eram "homens presos em corpos de mulheres". Essas falas, embora compreensíveis no contexto da época, não condizem com a compreensão atual sobre identidade de gênero.
Hoje, a discussão sobre identidade de gênero avançou significativamente. A comunidade trans conquistou direitos e visibilidade, e o debate sobre transfobia e respeito à diversidade se intensificou. Nesse contexto, a participação de Rogéria em Tieta precisa ser analisada criticamente, reconhecendo seus méritos e limitações.
A novela, apesar de seus avanços, ainda reproduz estereótipos e discursos problemáticos que precisam ser superados. A personagem de Rogéria, embora icônica, não representa a diversidade e a complexidade da experiência trans. É preciso ir além da caricatura e construir narrativas que retratam travestis e mulheres trans como indivíduos completos, com suas próprias histórias, sonhos e desafios.
Assistir a Tieta hoje é uma experiência enriquecedora, mas é preciso fazê-lo com um olhar crítico e consciente. A novela é um retrato de uma época em que a discussão sobre identidade de gênero era tabu, mas também é um lembrete de que ainda há muito a ser feito.
É preciso atualizar o discurso e construir novas narrativas que respeitem e valorizem a diversidade trans. A luta de Rogéria e de tantas outras travestis e mulheres trans não pode ser esquecida, mas é preciso ir além e construir um futuro em que todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero, sejam respeitadas e valorizadas, só assim teremos de sucesso os nossos sonhos coroados!
Leonna Moriale
Travesti Arte’ativista.
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