Nossa democracia não sobrevive com reeleições!
- Walber Guimarães Junior
- há 1 dia
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Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.
Se você tiver a curiosidade de perguntar para um eleitor quais são os aspectos prioritários na escolha do candidato em uma eleição majoritária, provavelmente a resposta colocará o candidato em primeiro plano com as pesquisas e sua ideologia como segunda prioridade, todavia se a pergunta for dirigida a um político, a expectativa de vitória, o volume de recursos da legenda e as alianças possíveis no entorno da candidatura serão muito mais relevantes. Uma boa análise da política nacional passa pela interpretação destas questões.

É muito natural que os critérios de eleitores e políticos sejam realmente diferentes, todavia é a ausência de algumas exigências que surpreende. Note que para nenhum dos conjuntos, propostas, planos ou ideias são relevantes para definição de voto, simplesmente porque, já faz muito tempo, que o foco das campanhas deixou de ser projetos, mas a necessidade de construir um desenho mental no eleitor alvo que combine com o candidato desejado. Claro que você já percebeu que quase nunca o candidato mais preparado é líder das pesquisas ou vencedor dos pleitos, simplesmente porque estamos à procura de super-herói, um salvador e o mix de qualidades exigidas estão muito mais focadas na personalidade do que na capacidade do candidato.
Carisma é muito mais relevante do que competência, basta observar os últimos presidentes eleitos, Dilma, Bolsonaro e Lula, e verificar que nenhum deles consegue inscrever cultura ou conhecimento no topo de suas qualidades, sendo amplamente superadas pelo carisma, poder de comunicação ou identidade com o cidadão comum, itens que o marketing tem poder para construir, demonstrando com exatidão que aquilo que o candidato enxerga é algo como uma projeção holográfica, não da imagem física, mas do perfil, milimetricamente do produto selecionado para conquistar votos.
Se tomarmos a máxima de James Carville, proferida em 1992, “é a economia, estúpido”, amplamente aceita e que informa que é a economia o fator mais importante na definição do voto, seria razoável supor que candidatos mais preparados para o desafio de administrar a economia poderiam ter mais viabilidade eleitoral, hipótese que não se sustenta, por exemplo, quando se busca exemplos históricos como Ciro Gomes ou Henrique Meirelles, economistas extremamente mais cultos que os candidatos eleitos, todavia apenas coadjuvantes nas eleições que participaram, pela simples razão que, ainda que competentes e reconhecidos, não se mostraram, ou não tiveram instrumentos para se transformarem em bons produtos eleitorais.
Gasto quatro parágrafos e meia dúzia de argumentos apenas para confirmar algo que é intuitivo para todos; quem vence as eleições não é o candidato mais preparado, mas o melhor produto eleitoral porque o marketing e a comunicação se sobrepõem a qualquer avaliação individual, algo que o eleitor comum exerce apenas superficialmente, e peço sua atenção para os parágrafos restantes para uma constatação ainda mais estarrecedora; nossa democracia não resiste à possibilidade de reeleição!
Limitando o universo apenas aos três últimos eleitos. Dilma represou a economia, jogou tudo para debaixo do tapete, travou preços essenciais, como energia e combustível, forjou uma fotografia irreal do país e obteve a reeleição. Jair Bolsonaro compromete toda sua história, a surpreendente vitória de 2018, a profunda identidade com parcela significativa para uma aventura tresloucada de mudar o resultado das eleições, não sendo razoável supor que a defesa da nação fosse um fator mais relevante do que o apego ao poder. Por fim, Lula, ainda que contestado por envolvimento com questões morais e judiciais, teve um desempenho bastante satisfatório, no seu primeiro mandato, se perdendo para mensalões e equivalentes por colocar no topo de suas prioridades a manutenção do poder e se arrasta no terceiro mandato, com popularidade em queda e precocemente focado nas eleições de 2026.
Lógico que as três personalidades listadas são significativamente diferentes, todavia este fator, apego ilimitado ao poder, os torna iguais e os leva a priorizar aspectos políticos partidários em detrimento da preocupação com suas biografias pessoais. Dilma, Lula e Bolsonaro seriam personalidades ainda maiores se exercessem um único mandato, sem possibilidade de reeleição e focados na missão de cuidar da nação e não de seu grupo político. Seguramente, impeachment e condenações e prisão não estariam manchando suas biografias se seus objetivos prioritários não fossem apenas suas reeleições.
Desnecessário migrar a avaliação para as esferas estadual ou municipal, onde a oferta de exemplos de desvios de conduta, de corrupção e de prejuízo para as finanças públicas porque, sem meias palavras, reeleições tem um custo muito elevado, corroendo impostos públicos que poderiam ser poupados e a moralidade preservada.
Julgo que não seja voz isolada, talvez nossa indignação ainda não ecoe em parcela significativa da população, mas preciso utilizar a caneta e o microfone as quais tenho acesso para bradar com convicção que nossa democracia não se sustenta com reeleição, nossas finanças não merecem este desaforo e afirmar que as reeleições provocam um déficit gigantesco de ética e decência na prática política nacional.
É hora da sociedade entender que reeleição é fonte de descaminho, altera prioridades fundamentais e nos coloca como secundários no jogo democrático e ter a convicção de que os políticos jamais renunciarão a esta possibilidade sem pressão pública. Transição geracional é algo inexistente no nosso dicionário político porque nossos líderes preferem morrer no poder ou seguir até que seja impossível se sustentar no topo.
Afirmo com convicção que reeleições são catalizadores de corrupção, de mau uso de dinheiro público e não favorecem a democracia, basta ver que temos dois líderes, ambos muito contestados, quase octogenários, que dividem mais de 80% das preferências eleitorais, simplesmente porque ambos, personalistas ao extremo, não permitem o surgimento de novas lideranças porque sonham com o poder até quando for possível mantê-lo.
Trump tem sido até mais sincero e, ao estilo Maduro, já avisa que quer mais um mandato que a Constituição não lhe permite. O agravante é que ele não preside a Venezuela ....
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