FALEM DE NÓS... (Dedicado ao Coletivo LGBTI+ de Paranavaí - PR)
- Fabiana Carvalho
- 24 de jul. de 2024
- 5 min de leitura
O que vão dizer de nós?
Seus pais, Deus e coisas tais...
Um novo tempo há de vencer
Pra que a gente possa florescer, e, baby, amar sem temer...
Ninguém vai poder querer nos dizer como amar!
Ninguém vai poder querer nos dizer como amar!
Ouço “Flutua”, música interpretada pela cantora trans Liniker e pelo cantor e performer gay Johnny Hooker, pensando na liberdade de viver e desafiar as convenções sociais tanto pela arte quanto pelas formas de amor que transgridem e ultra-passam a heterossexualidade normativa e compulsória. A pergunta inicial – “O que vão dizer de nós”? – não é apenas uma questão comum para as pessoas que vivem relacionamentos, performam e materializam corpos LGBTQIAPN+, particularmente quando essas confrontam seus medos, esperanças, descobertas e buscas de aceitação por ser e estar num mundo que as segregam. A pergunta é uma mensagem de resistência; e, como diria bell hooks (2021), de um amor engajado politicamente, coletivo e social que transforma ao posicionar o reconhecimento ontológico desses corpos e a afirmação da diversidade humana.
“O que vão dizer de nós” é também nome do documentário dirigido por Camila Clozato e Felipe Bonifácio, disponibilizado gratuitamente no Canal YouTube (https://youtu.be/4p1jbVIoRoI?feature=shared). Contemplado por editais de apoio à cultura e recursos da Fundação Cultural de Paranavaí, da Lei Paulo Gustavo e do Ministério da Cultura / Governo Federal, o filme acompanha a atuação do Coletivo LGBTI+ de Paranavaí, coordenado por Rose Macfergus, travesti, artivista e liderança local quando o assunto é direitos humanos e reconhecimento da população transgênera e transexual.
Formado em 2018, o Coletivo LGBTI+ desenvolve a resistência política com palestras, rodas de conversa, debates sobre diversidade sexual e respeito em Paranavaí e região, empenhando-se em ações educativas e assistenciais que enfrentam a intolerância, posicionamentos LGBTfóbicos e demais problemas advindos da violência de gênero na sociedade. Destacam-se deste trabalho o acolhimento à comunidade LGBTQIAPN+, em especial às pessoas que se encontram em vulnerabilidade social (moradoras/es de rua, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneras desassistidas/os por familiares ou pelas instâncias do poder público), e as alianças com outros movimentos sociais favoráveis à justiça social, entre os quais, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, tanto em suas práticas agrícolas sustentáveis (produção e a distribuição de alimentos ecológicos) como na luta em prol da reforma agrária.
As bandeiras do Coletivo LGBTI+ de Paranavaí não agradam aquelas/es alinhadas/os às políticas de ódio (racismo, sexismo, misoginia, LGBTfobia, capacitismo, etarismo, xenofobia) e à manutenção das desigualdades econômicas e estruturais (fosso social entre pobres e ricas/os, má distribuição de renda, não empregabilidade e precarização do trabalho, cultura de opressão, etc.). Nesse contexto, o posicionamento antirracista, antifascista e anticolonialista do grupo faz frente e parede aos movimentos e discursos conservadores crescentes no município, no Paraná e no Brasil como um todo.
Vale pontuar que o conservadorismo é uma forma de perpetuação do poder dominante e das normas e convenções sociais que apagam, excluem ou matam a diferença. Esse não é um fenômeno recente, porém, após a ascensão da extrema-direita no país – de 2010 à fabricação do Bolsonarismo como posição ideológica e projeto de governo (Solano-Gallego, 2018) –, o conservadorismo tem congregado cada vez mais pessoas reativas aos direitos sexuais e reprodutivos conquistados pela comunidade LGBTQIAPN+ ao longo da história. No Brasil, estratégias difamatórias, pânico moral e a disseminação de inverdades que patologizam, em particular, as pessoas transgêneras e transexuais são discursos recorrentes e promotores de violências. Somam-se a tais estratégias a redução de investimentos e a desregulamentação das políticas públicas para assistência saúde, reprodutiva, farmacológica, educacional, alimentar e de trabalho às pessoas que não correspondem às imposições das normas sexo-gênero. Esse quadro ainda culmina em dados negativos que alçam o Brasil à liderança de mortes por assassinato de travestis, mulheres transgêneras e pessoas transmasculinas no mundo. De acordo com o Relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), em 2023, foram registrados 145 assassinatos de pessoas trans, correspondendo a um aumento de 10,7% em relação aos casos do ano anterior. O relatório também aponta que 65% dos assassinatos ocorreram fora das capitais estaduais, principalmente em cidades do interior (Benevides, 2024).
“O que vão dizer de nós” tange tudo isso! E fala de engaje entre serviço social, arte, cultura, militância e resistência. Rose Macfergus e suas/seus parceiras/es/os, em seis anos de atuação desde a fundação do Coletivo, apontam, a partir de trabalhos sociais em Paranavaí, ser possível novos tempos e mundos melhores. O curta-metragem reverbera o exercício da micropolítica, assim, molecular, cotidiana, quase invisível quando comparada aquilo que o Estado e as grandes corporações (não) fazem. E, com ele, somos também convocadas/os a ressignificar nossas práticas, a ensinar que as mudanças podem começar a partir dos pequenos arranjos (famílias, amizades, parcerias, movimentos sociais), da configuração de outras posturas (respeito à diferença e à diversidade, barramento de discursos de ódio), da mudança dos contextos ou realidades imediatas (escolas, produções culturais, organizações civis, cidades). Em 30 minutos, flutuamos com as esperanças e assistências tecidas pelo Coletivo LGBTI+ de Paranavaí. Engana-se, no entanto, quem crê que essas esperanças são a-históricas, alienadas ou ingênuas. Praticar a não conformidade e operar a constante mudança são partes da verve que transforma o documentário em um ato de revolução!
Ficha Técnica:
Título: O que vão dizer de nós
Gênero: Documentário, curta-metragem
Duração: 30 minutos
Ano: 2024
Direção: Camila Clozato e Felipe Bonifácio
Direção de Fotografia: Max Miranda
Argumento e roteiro: Camila Clozato e Felipe Bonifácio
Identidade Visual: Naju Campus
Produção executiva: Rose MacFergus, Camila Clozato
Equipe de Produção: Coletivo LGBTI+ de Paranavaí, Felipe Bonifácio, Camila Clozato, Max Miranda, Rodrigo Taddeu, Igraine Macfergus
Produção audiovisual: Fenda
Co-Produção: Irreverso Laboratório de Arte Expandida
Realização: Fundação Cultural de Paranavaí, Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura e Governo Federal
Apoio: Instituto Federal do Paraná - Campus Paranavaí
Para Saber mais:
BENEVIDES, Bruna G. Dossiê assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2023. Brasília: ANTRA, 2024. Disponível em: <https://encr.pw/iFgJ4 >.
hooks, bell. Tudo sobre o amor. 1ª. ed. São Paulo: Editora Elefante, 2021.
SOLANO-GALLEGO, Esther (org.). O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. 1ª. ed. São Paulo: Boitempo, 2018.
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Fabiana Carvalho é Bióloga de formação; Mestra em Educação; Doutora em Educação para Ciências; Pós-Doutora em Educação Científica e Tecnológica. Interessa-se por Pesquisas nas Educações para o Corpo, Gênero, Sexualidade e Diferença, considerando os Estudos Feministas e LGBTQIAPN+. Navega pelos territórios da Biologia e suas imbricações com a Cultura, articulando críticas, discussões biológicas e também literárias sobre diversas questões do cotidiano. Colabora com o Canal “Bisbilhoteiro”, assinando textos para a Coluna “Bisbi Diversidade”.
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