A Fantasia da Transgressão: Carnaval e a Invisibilidade Travesti
- Leonna Moriale
- 26 de fev.
- 3 min de leitura
Por Leonna Moriale
O Carnaval é palco da transgressão e da liberdade, mas eu quero fazer o convite à reflexão sobre os limites da celebração. Em meio à euforia da festa, a utilização da identidade travesti como fantasia emerge como um ponto de discórdia, um espelho que reflete as contradições de uma sociedade que oscila entre a admiração e o preconceito.

O Brasil, paradoxalmente, ostenta dois tristes recordes: é o país que mais mata mulheres trans no mundo e o maior consumidor de pornografia trans. Essa dualidade macabra expõe a objetificação e a violência que permeiam a vida dessas mulheres, transformando seus corpos em mercadoria e seus destinos em estatísticas.
A fantasia de travesti no Carnaval, longe de ser uma homenagem, perpetua estereótipos e desumaniza uma população já marginalizada. A caricatura da feminilidade, o exagero nos traços e a sexualização exacerbada transformam a identidade travesti em um objeto de diversão desprovido de história e significado.
Ao invés de celebrar a diversidade, essa prática reforça o preconceito e a discriminação, apagando a identidade e a história de mulheres que lutam por respeito e dignidade. A fantasia, ao invés de libertar, aprisiona a identidade travesti em um estereótipo caricato, desprovido de humanidade e complexidade.
A apropriação da identidade travesti como fantasia no Carnaval serve como um lembrete incômodo da contínua luta por reconhecimento e respeito enfrentada pela comunidade trans. O uso da identidade travesti não apenas reforça estereótipos prejudiciais, mas também contribui para a invisibilidade das questões e desafios reais enfrentados pelas pessoas trans em sua vida diária, além de dar margem para a crença de que ser travesti é algo passageiro, é uma escolha ou algo momentâneo!
É crucial reconhecer que a identidade travesti não é um traje descartável, mas uma realidade feminina vivida por cidadãs de direito.
É preciso olhar com atenção para o desejo e a perseguição que corpos trans e travestis sofrem. Existe a ideia de que homens queiram vivenciar uma identidade feminina no carnaval pela sexualização e experimentação do que é o feminino, feminino este que muitas das vezes não representa nem mesmo mulheres cis, mulheres que não gostam de maquiagem, não gostam de salto alto ou de usar em vestido. É claro que muitas Drag Queens surgem no carnaval, mas esta é uma forma de arte que deve respeitar a identidade de gênero e a história do movimento artístico LGBT, afinal a arte é expressão e liberdade… Vivida a partir de estudo, conhecimento e trabalho! Não se pode banalizar a identidade travesti nem mesmo o processo criativo de desenvolvimento de uma personagem, travestis e drag queens existem o ano todo não somente em fevereiro ou no carnaval.
O Carnaval, com sua atmosfera de celebração e liberdade, deve ser um espaço onde todas as formas de identidade sejam respeitadas e valorizadas, em vez de exploradas e banalizadas.
A sociedade brasileira, conhecida por sua diversidade e espírito festivo, precisa urgentemente reavaliar suas práticas carnavalescas. Em vez de perpetuar estereótipos prejudiciais e desumanizar identidades marginalizadas, o Carnaval deve ser um espaço de celebração da diversidade em todas as suas formas.
A conscientização sobre a violência e a discriminação enfrentadas pela comunidade trans deve transcender os limites do Carnaval. É necessário um compromisso contínuo com a educação e a promoção da igualdade, a fim de criar uma sociedade onde todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero, possam viver com dignidade e respeito.
O Carnaval, com seu poder de mobilização e visibilidade, pode ser um catalisador para a mudança social. Ao invés de ser um palco para a apropriação cultural e a perpetuação de estereótipos, a festa pode se tornar um espaço de celebração da diversidade e de luta por direitos.
A mudança começa com a conscientização e o diálogo. É fundamental que a sociedade brasileira reconheça a importância de respeitar a identidade travesti e de combater a transfobia em todas as suas formas. O Carnaval, com sua alegria e irreverência, pode ser um espaço de transformação, onde a fantasia da transgressão se transforma em realidade de respeito e igualdade, para que um dia tenhamos de sucesso os nossos sonhos coroados!
Leonna Moriale
Travesti Arte’ativista.
Muito boa colocação, Leonna!
É preciso viver todos os dias com alegria e respeito. Brincar o carnaval também é respeitar as diferenças e viver a igualdade. Se conseguimos isso em uma data onde tudo é possível e permitido, por que não nas horas e dias comuns? Vamos viver a diversidade vivendo nossa melhor humanidade.
Texto muito importante para a consciência do respeito à diversidade e e para o entendimento da verdadeira luta por direitos para tod@s.
As diferentes caricaturas nas fantasias no Carnaval vem de encontro (contrárias) ao significado e à valorização das criaturas humanas.